VT_Tematica_Medicina interna_detail.jpg VT_Tematica_Medicina interna_detail.jpg
  • Tempo de leitura: 4 mins

    Babesia em cães: uma doença ou várias

    Existem diferenças espécies de Babesia em cães capazes de causar doença clínica.

    Introdução

    A babesiose canina é uma doença vetorial, com um significado clínico importante e distribuição global, causada por hemoparasitas do género Babesia.   

    Descarregue de forma gratuita → Relatório sobre o papel da dieta na dermatite  atópica canina. Inclui: tratamento nutricional para diminuir a resposta inflamatória,  hipersensibilidade, prurido..

    A espécie infetante tem um efeito direto na gravidade do quadro clínico e no tratamento da doença.1,2 Por isso, é importante que o veterinário esteja familiarizado com as diferentes espécies que infetam o cão e as suas características. 

    Babesia em cães: classificação

    Em geral, de acordo com o seu tamanho, os parasitas do género Babesia em cães podem dividir-se em grandes e pequenos:

    • As espécies de Babesia grandes incluem a B. canis, a B. rossi e B. vogeli, e a B. coco.1,3
    • As espécies de Babesia pequenas descritas até à data são a B. gibsoni, a B. conradae e a B. vulpes (antes denominada B. microti-like e Theileria annae).1

    Babesia em cães

    Babesia em cães: distribuição geográfica

    A distribuição geográfica das diferentes espécies de Babesia em cães é determinada pelo habitat do seu vetor.

    Até 2016, tinham-se isolado na Europa as seguintes: B. canis (vetor D. reticulatus), B. vogeli (R. sanguineous), B. vulpes (possivelmente Ixodes spp.), e B. gibsoni (transmitida principalmente através de lutas).1,2 Embora não seja maioritária, a transmissão vertical foi descrita em algumas espécies.1 

    Nos EUA, as espécies isoladas mais frequentemente são a B. vogeli e a B. gibsoni, mas também foram identificadas a B. conradae e a B. vulpes.2 

    No Brasil e em outros países da América do Sul, isolaram-se a B. vogeli e a B. gibsoni, ao passo que a B. rossi é especialmente importante na África do Sul.2,4

    Quadro clínico

    As infeções por Babesia em cães podem manifestar-se de forma hiperaguda, aguda ou crónica, causando um quadro clínico muito variável. Em geral, assume-se que a B. vogeli é a menos patogénica e que a B. rossi causa os quadros mais graves. A B. gibsoni e a B. vulpes costumam causar quadros de moderados a graves.1

    Os sinais clínicos de babesiose não complicada incluem letargia, debilidade, vómito, anorexia e febre. A presença de mucosas pálidas, icterícia, esplenomegalia e urina escura sugerem o padecimento de um processo hemolítico.

    Fala-se de babesiose complicada quando nem todas as manifestações clínicas se explicam apenas como sendo uma consequência da hemólise, pois há também falência de um ou vários sistemas orgânicos. Estes doentes podem apresentar sinais neurológicos, diátese hemorrágica, edema pulmonar, hipotensão refratária, lesão renal aguda e morte.1,2

    Diagnóstico

    As alterações hematológicas clássicas na babesiose incluem anemia regenerativa, trombocitopenia e leucograma variável. Contudo, alguns doentes podem ser diagnosticados em estados pré-regenerativos, e, em outros, os índices de regeneração podem ser muito subtis. É frequente observar aglutinação nos eritrócitos, presença de esferócitos e obter resultados positivos no teste de Coombs. A trombocitopenia é extremamente frequente e é tanto assim até ao ponto de um estudo realizado na África do Sul afirmar que a probabilidade de um cão não trombocitopénico ter babesiose é < 1%.2

    Descarregue de forma gratuita → Relatório sobre o papel da dieta na dermatite  atópica canina. Inclui: tratamento nutricional para diminuir a resposta inflamatória,  hipersensibilidade, prurido..

    As alterações do perfil bioquímico são inespecíficas e incluem hipoalbuminemia e aumentos na concentração de ALT, AST, fosfatase alcalina, bilirrubina e azotemia pré-renal e renal. Além disso, em doentes com babesiose complicada é frequente encontrar hipoglicemia, desequilíbrios ácido-base e nível elevado de proteínas de fase aguda.1,2 A monitorização da lesão e função renal é especialmente recomendada em doentes com infeção por B. rossi.5

    diagnóstico da doença pode ser estabelecido após a identificação de formas compatíveis com Babesia spp. num esfregaço sanguíneo por meio de PCR ou serologia. A identificação através de esfregaço é considerada ser o método de eleição em cães com quadros agudos, especialmente em infeções por B. canis, porque permite fazer um diagnóstico rápido e apresenta uma sensibilidade muito boa. A sensibilidade diagnóstica é menor quando as infeções são causadas por B. vogeli ou espécies de Babesia pequenas, assim como em doentes com quadros crónicos. Por isso, para estes casos, recomendam-se outras técnicas.

    Uma serologia positiva num doente com sinais compatíveis é sugestiva de infeção por Babesia spp., mas a existência de uma reação cruzada entre as diferentes espécies de Babesia não permite estimar qual delas é a infetante. Por outro lado, em doentes com quadros agudos, é possível que as amostras sejam obtidas antes de ter havido uma seroconversão, pelo que se podem obter resultados negativos.2 

    A técnica com maior sensibilidade diagnóstica e que permite igualmente uma identificação precisa da espécie infetante é a PCR, embora tenha o inconveniente de que os resultados possam demorar vários dias até estarem disponíveis.1,2

    Tratamento

    É importante aceitar que não existe um tratamento 100% eficaz e seguro para tratar todas as infeções por Babesia em cães. Em geral, a seleção do fármaco a utilizar depende da espécie infetante. Considera-se que as espécies de Babesia grandes respondem melhor do que as pequenas. Além disso, em casos graves, pode ser necessário administrar um tratamento específico para alguma das complicações da doença.1,4

    • dipropionato de imidocarb (6,6 mg/kg, ir ou sbc, 1-2 injeções em 15 dias) é o tratamento de eleição para a babesiose causada por espécies grandes. Os efeitos adversos deste fármaco incluem dor no ponto de injeção e sinais colinérgicos cuja gravidade e manifestação podem ser reduzidas com a administração prévia de atropina.1,2,4
    • diminazeno (3,5 mg/kg im) é eficaz contra a B. canis e é considerado ser o tratamento de eleição em infeções por B. rossi. A sua eficácia contra a B. gibsoni é menor embora se tenha demonstrado que reduz a carga parasitária e a mortalidade. Pode causar efeitos adversos de tipo neurológico.4
    • combinado de atovaquona (13,5 mg/kg/8 horas po) e azitromicina (10 mg/kg/24 horas po) durante 10 dias foi considerado como sendo um tratamento de eleição em infeções por espécies de Babesia pequenas.1,4 Contudo, nem todos os casos respondem adequadamente ao tratamento e foram reportadas resistências. Nestes casos, a combinação de clindamicina, imidocarb e diminazeno poderá ser eficaz.4
    • Alguns autores consideram que a buparvaquona (5 mg/kg im, 2 vezes a cada 48 horas) apresenta maior eficácia do que a atovaquona em infeções por B. vulpes.4
       

    Mesmo quando o tratamento consiga alcançar a remissão clínica completa, é possível que o cão permaneça infetado. Neste sentido, a utilização da PCR permite monitorizar a verdadeira eficácia do tratamento.

    Quanto ao tratamento de apoio, em doentes com anemias graves poderá ser necessário usar derivados sanguíneos. A administração de corticoides em doentes com babesiose e anemia hemolítica imunomediada é objeto de controvérsia, mas pode ser uma opção em casos em que não haja resposta ao tratamento habitual.1 Além disso, para esses doentes, recomendou-se tromboprofilaxia com ácido acetilsalicílico, heparina ou clopidogrel devido ao risco elevado de desenvolver tromboembolismo pulmonar.

    Conclusões

    Para nós, veterinários, deve ser claro que em função da zona em que trabalhamos, podemos ter infeções causadas por espécies diferentes de Babesia. Isto implica quadros clínicos de gravidade variável e, mais importante, tratamentos e prognósticos distintos. Por isso, quando diagnosticarmos babesiose num doente, é muito importante tentarmos identificar qual é espécie responsável pela mesma. 

    Descarregue GRATUITAMENTE → Clinical Tool: Abordagem multimodal  no tratamento das doenças do trato urinário inferior felino. 

    Bibliografia
    1.   Solano-Gallego L, Sainz Á, Roura X, et al. (2016). A review of canine babesiosis: the European perspective. Parasit Vectors.; 9: 336.
    2.   Irwin PJ. (2010). Canine babesiosis. Vet Clin North Am Small Anim Pract; 40:1141-1156.
    3.   Ullal T, Birkenheuer A, Vaden S. (2018). Azotemia and Proteinuria in Dogs Infected with Babesia gibsoni. J Am Anim Hosp Assoc; 54:156-160.
    4.   Baneth G. (2018). Antiprotozoal treatment of canine babesiosis. Vet Parasitol; 254: 58-63.
    5.   Defauw P, Schoeman JP, Leisewitz AL, et al. (2020). Evaluation of acute kidney injury in dogs with complicated or uncomplicated Babesia rossi infection. Ticks Tick Borne Dis; 11: 101406.
    Oscar Cortadellas
    Professor Associado Departamento de Medicina e Cirurgia Animal
    • HOSPITAL CLÍNICO VETERINÁRIO 
      
    • UNIVERSIDADE CEU CARDENAL HERRERA
    aiiura-meijer-mora02_0.jpg
    Vómito amarelo em gatos: o que é a síndrome do vómito bilioso?
    Um vómito amarelo em gatos não está necessariamente associado a uma doença hepática.
    andrea-loupez-chilloun18_0.jpg
    Osteossarcoma no cão: diagnóstico e opções terapêuticas
    O osteossarcoma no cão é um tumor mesenquimal maligno das células ósseas primitivas que afeta principalmente cães de raça grande ou gigante.1
    alba-jimeunez-martiunez85_2.jpg
    Sarna demodécica em cães: o que mudou nos últimos anos?
    A sarna demodécica em cães é uma doença inflamatória da pele causada por uma proliferação excessiva de ácaros de Demodex spp.1