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    Cálculo renal em cães: diagnóstico e controlo

    A importância clínica dos cálculos renais em cães aumentou exponencialmente nos últimos 10-15 anos.

    Introdução

    Durante muitos anos, os urólitos que afetam o trato urinário superior foram considerados extremamente raros na espécie canina. Contudo, a crescente expansão das técnicas de diagnóstico por imagem na rotina clínica veio mostrar que o cálculo renal em cães é mais frequente do que se pensava

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    Em muitos casos, os doentes com nefrólitos podem não apresentar sinais clínicos durante anos. No entanto, quando apresentam, os mesmos costumam ser graves (comprometimentocompromisso da função renal, pielonefrite, hidronefrose), requerendo uma intervenção especializada em muitos casos. Portanto, é importante que o clínico esteja familiarizado com o diagnóstico e controlo deste tipo de cálculos urinários.

    Diagnóstico

    Inicialmente, a existência do cálculo renal em cães é estabelecida com base em achados em exames de imagemimagiológicos (radiologia, ecografia ou TCTAC) realizados em doentes com suspeita clínica de litíase ou como achado incidental em cães submetidos a estes exames por outros motivos. Sempre que seja detetado um nefro-ureterólito, está indicado completar a avaliação diagnóstica com hematologia, bioquímica e urianálise completa (pielocentese em determinados casos). O relatório do doente e a informação destes exames podem ser usados para estimarprever a composição do cálculo e decidir a melhor opção de tratamento.

    calculo renal em caes

    Imagem retirada do webinar “Urolitíase felina e controlo médico de obstruções ureterais”, de Luis Feo.
     

    Embora tenha sido publicado que 20-60% dos nefrólitos do cão são de estruvite, atualmente, a maioria dos autores concorda que, pelo menos, 60% dos nefro-ureterólitos no cão são compostos por oxalato de cálcio.1-3 Portanto, serão visíveis radiologicamente, embora os cálculos de pequenas dimensões possam ser difíceis de identificar poratravés de uma radiografia simples, sendo necessário recorrer a técnicas diagnósticas mais avançadas. 

    Os cálculos de urato e cistina (muito menos frequentes) são minimamente radiopacos ou radiotransparentes, pelo que não serão visíveis poratravés de radiografia, sendo necessário recorrer a outras técnicas diagnósticas no caso de suspeita clínica.

     CÁLCULOS E PH

    A nefrolitíase de estruvite no cão costuma ocorrer com um pH alcalino, afeta principalmente fêmeas e é quase sempre secundária a infeções urinárias. No entanto, os cristais de urato e oxalato de cálcio precipitam a um pH < 7.

    A cistina fá-lo a valores de pH mais variáveis.

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    UROLITÍASE E PREDISPOSIÇÃO RACIAL 

    Determinadas raças têm uma predisposição para sofrer de nefrolitíases específicas, como por exemplo:

    • Urato no dálmata, bulldog e cães com shunt portossistémico;
    • Cistina no bulldog, terranova, labrador ou machos não castrados;
    • Oxalato de cálcio no schnauzer miniatura, terriers, caniche ou shih-tzu.1

    Tratamento do cálculo renal em cães

    O tratamento do cálculo renal em cães deve depender de uma avaliação individual.

    • Em doentes assintomáticos, a recomendação é monitorizar a evolução do tamanho do cálculo e da função renal antes de se decidir se a sua eliminação é necessária.1-5
    • Contudo, está indicado o controlo médico dos cálculos renais em cães sempre que a natureza do cálculo ou a suspeita clínica indiquem que a dissolução é possível, desde que haja circunstâncias adequadas para tal (em que o cálculo possa ser rodeado pela urina e não haja obstrução ou infeção urinária não controlável).
    • Se houver obstrução ureteral, a dissolução médica está contraindicada, exceto se for possível colocar um stentstent ou um dispositivo de bypassbypass subcutâneo que permita manter o fluxo de urina durante o tempo necessário para a dissolução.
       

    TRATAMENTO MÉDICO

    • O tratamento médico da nefrolitíase de estruvite baseia-se na administração de antibiótico até à dissolução completa do cálculo, juntamente com uma dieta com restrição de fósforo e magnésio que favoreça a acidificação da urina.1,5
    • Considera-se possível a dissolução médica dos urólitos de urato (dieta com restrição de purinas que alcalinize a urina e alopurinol a 15 mg/kg/12 horas), embora tenha sido reportadanotificada uma eficácia de cerca de 30-40%.
    • O tratamento médico não é recomendado em cães com doença hepática subjacente.1,5
    • Por último, o tratamento dos cálculos de cistina inclui uma dieta com restrição de aminoácidos e pobre em cistina que favoreça um pH alcalino, o uso de tiopronina (20 mg/kg/12 horas) e, caso necessário, o citrato de potássio como alcalinizante.1
       

    ELIMINAÇÃO DOS CÁLCULOS RENAIS

    Está indicada em determinados casos:

    • Perda progressiva de parênquima renal secundária ao aumento de tamanho do nefrólito,
    • Pielonefrite não responsiva a controlotratamento médico
    • Obstrução que possa causar hidronefrose.1
       

    A recomendação atual é recorrer às técnicas o menos invasivas possível. Portanto, as técnicas tradicionais (nefrotomia, pielotomia e ureteronefrectomia) são cada vez menos usadas devido às suas morbilidade e mortalidade elevadas, comparativamente a procedimentos minimamente invasivos, que são, atualmente, os mais recomendados, como a litotripsia extracorpórea (com colocação de um stentstent ureteral nos casos com risco de obstrução ureteral) e a nefrolitotomia endoscópica percutânea ou cirurgicamente assistida.1,5

    Conclusões

    Atualmente, sabemos que os cálculos renais em cães são bastante mais frequentes do que se pensava há 15-20 anos. Embora muitos doentes com nefrólitos possam ser assintomáticos, é fundamentar fazer um acompanhamento adequado da evolução do cálculo, monitorizar os seus potenciais efeitos na função renal e avaliar uma possível dissolução médica. Por outro lado, convém incluir os exames de imagemimagiológicos na monitorização de doentes que possam ser considerados de risco, como cães com leishmaniose em tratamento com alopurinol ou cães com doença renal crónica.

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    Bibliografia
    1. Milligan M, Berent AC. Medical and interventional management of upper urinary tract uroliths. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2019;49:157-174.
    2. Adams LG. Nephroliths and ureteroliths: a new stone age. N Z Vet J. 2013;61:212-216. 
    3. Cléroux A. Minimally invasive management of uroliths in cats and dogs. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2018;48:875-889.
    4. Westropp JL, Lulich J. Medical management of urolithiasis. Em: Elliot J, Grauer F, Westropp JL (eds). BSVA Manual of Canine and Feline Nephrology and Urology. Gloucester: British Small Animal Association. 2017; 304-310.
    5. Lulich JP, Chew AC, Lulich LG, et al. ACVIM Small Animal Consensus Recommendations on the Treatment and Prevention of Uroliths in Dogs and Cats. J Vet Intern Med. 2016;30:1564-1574.
    Oscar Cortadellas
    Professor Associado Departamento de Medicina e Cirurgia Animal
    • HOSPITAL CLÍNICO VETERINÁRIO 
      
    • UNIVERSIDADE CEU CARDENAL HERRERA
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