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    Carcinoma de células escamosas em gatos: apresentação clínica e tratamento

    O carcinoma de células escamosas em gatos é uma neoplasia com uma percentagem de mortalidade considerável.

    Introdução

    carcinoma de células escamosas em gatos é uma neoplasia maligna que se desenvolve a partir do epitélio escamoso, se estabelece preferencialmente na pele e na cavidade oral e costuma afetar gatos mais velhos (média 10-12 anos).1

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    Representa 15-25% das neoplasias cutâneas felinas, localizando-se preferencialmente em zonas não pigmentadas e áreas com pouco pelo ao nível do pavilhão auricular, pálpebras e plano nasal.

    Cerca de 10% dos carcinomas de células escamosas ocorrem em zonas pigmentadas da pele como lesões superficiais múltiplas, referidas na literatura como carcinoma Bowenoide, carcinoma de Bowen ou carcinoma de células escamosas multicêntrico in situ.1,2

    O carcinoma de células escamosas é o tumor oral mais frequente no gato (60-70% dos casos). Costuma afetar principalmente a língua e a região sublingual, a mucosa bucal, lábios e região tonsilar, mas também pode afetar os ossos maxilar e mandibular.3

    A localização digital, frequente no cão, é mais rara no gato, mas não se deve excluir a possibilidade de uma massa ser um carcinoma de células escamosas apenas com base na sua localização. A título de exemplo, recentemente foram descritos dois casos de carcinoma de células escamosas dos sacos anais.5

    O carcinoma de células escamosas felino foi considerado tradicionalmente como um tumor de baixo potencial metastático. No entanto, estudos mais recentes demonstraram que, na sua apresentação oral, a percentagem de metástase no gânglio mandibular era de pelo menos 35,7%.4 

    carcinoma de celulas escamosas em gatos

    Etiopatogénese do carcinoma de células escamosas em gatos

    A etiologia do carcinoma de células escamosas em gatos não é totalmente conhecida, mas é provável que seja multifactorial:

    • A exposição à radiação solar tem um papel importante na sua apresentação cutânea e os gatos brancos ou pigmentados mas com zonas de cor branca estão mais predispostos a isso. Por outro lado, os siameses (devido à sua pigmentação característica) e as raças de pelo comprido parecem ter um menor risco.2
    • Além disso, a exposição ao fumo do tabaco duplica o risco de sofrer um carcinoma de células escamosas oral.
    • Outros fatores, que se acredita que possam favorecer o desenvolvimento destes tumores, incluem o uso de coleiras antipulgas (multiplica o risco 5,3 vezes), o consumo de comida enlatada (multiplica o risco 3,6 vezes) e a inflamação crónica.
       

    Embora o mecanismo patogénico não esteja esclarecido, estas situações podem favorecer mutações no gene supressor tumoral p53, que tem um papel fundamental no desenvolvimento desta neoplasia.1,3

    Apresentação clínica do carcinoma de células escamosas em gatos

    Os sinais clínicos dependem da localização do tumor.

    • Os gatos com carcinoma de células escamosas nasal costumam apresentar espirros, corrimento nasal e deformidade facial.
    • Os tumores orais estão associados a sialorreia, sangramento oral, anorexia, perda de peças dentárias, perda de peso e halitose.1
    • Em muitos casos, o carcinoma de células escamosas em gatos apresenta-se como uma massa visível, cujo aspeto pode ser de:
      • Uma lesão crostosa superficial (carcinoma in situ);
      • Lesões ulceradas profundas que não cicatrizam;
      •  Ou placas elevadas de cor avermelhada e forma de couve-flor.
         

    O aspeto da lesão pode mudar com o tempo. As lesões nos pavilhões auriculares costumam mostrar alterações actínicas, consistentes no espessamento e dobra das pontas das orelhas, antes do aparecimento de erosões e crostas. Por vezes, a suspeita do diagnóstico tem como base o exame citológico, mas normalmente confirma-se através de biópsia excisional ou incisional.1

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    O CCE CUTÂNEO ESTADIA-SE DE ACORDO COM A CLASSIFICAÇÃO DA OMS COMO:1

    • Tis, carcinoma pré-invasivo (carcinoma in situ) que não atravessa a membrana basal.
    • T1, tumor com < 2 cm de diâmetro, superficial ou exofítico.
    • T2, tumor com 2-5 cm de diâmetro ou com invasão mínima independentemente do seu tamanho.
    • T3, tumor com > 5 cm de diâmetro ou com invasão do subcutâneo independentemente do seu tamanho.
    • T4, tumor que invade outras estruturas, como fáscia, músculo, osso ou cartilagem. 

    Tratamento

    As opções de tratamento do carcinoma de células escamosas felino incluem cirurgia, radioterapia, quimioterapia, plesioterapia, eletroquimioterapia, crioterapia, terapia fotodinâmica e o uso de anti-inflamatórios não esteroides.1-6

    Além disso, dependendo da localização do tumor, é importante um bom controlo analgésico e garantir um suporte nutricional adequado, que provavelmente envolverá a colocação de algum tipo de sonda de alimentação.

    A cirurgia é considerada o tratamento de eleição do carcinoma de células escamosas em gatos. Os doentes com tumores bem diferenciados, que podem ser totalmente extirpados, sem invasão vascular/linfática nem metástases distantes, apresentam um bom prognóstico. Por outro lado, gatos com neoplasias não operáveis, pobremente diferenciadas e com metástases têm um prognóstico muito mau. Deve ter-se em conta que nem todos os tutores aceitam a realização de cirurgias agressivas ao nível do plano nasal ou cavidade oral. Nestes casos, pode-se recorrer-se a outros tipos de tratamento ou ao controlo multimodal para tentar melhorar a sobrevivência do doente. Embora o carcinoma de células escamosas não seja considerado um tumor quimiossensível, esta modalidade de tratamento poderá ser considerada em neoplasias inoperáveis ou que já não apresentem metástases no momento do diagnóstico.

    Conclusões

    O carcinoma de células escamosas é uma neoplasia maligna que, dependendo da sua localização, pode apresentar uma percentagem de mortalidade considerável. Portanto, perante o surgimento de lesões compatíveis, é muito importante recomendar logo na consulta inicial a realização de citologias e/ou biópsias que permitam um diagnóstico precoce. Deste modo, poderemos garantir um tratamento mais eficaz. Deve-se sempre fugir do típico “vamos esperar a ver se cresce” e atuar rapidamente.

    A nível profilático, foi já recomendado evitar-se a exposição prolongada à radiação ultravioleta por gatos de risco ou, caso não seja possível, considerar a aplicação de cremes protetores nas zonas cutâneas mais comprometidas.1 

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    Bibliografia
    1. Murphy S. Cutaneous squamous cell carcinoma in the cat: current understanding and treatment approaches. J Feline Med Surg. 2013; 15: 401-407.
    2. Berlato D, Murphy S, Laberke S, et al. Response, disease-free interval and overall survival of cats with nasal planum squamous cell carcinoma treated with a fractionated vs a single-dose protocol of strontium plesiotherapy. J Feline Med Surg. 2019; 21: 306-313.
    3. Bilgic O, Duda L, Sánchez MD, et al. Feline oral squamous cell carcinoma: Clinical manifestations and literature review. J Vet Dent. 2015; 32: 30-40.
    4. Flickinger I, Gasymova E, Dietiker-Moretti S, et al. Evaluation of long-term outcome and prognostic factors of feline squamous cell carcinomas treated with photodynamic therapy using liposomal phosphorylated meta-tetra(hydroxylphenyl)chlorine. J Feline Med Surg. 2018;20:1100-1104.
    5. Kopke MA, Gal A, Piripi SA, et al. Squamous cell carcinoma of the anal sac in two cats. J Small Anim Pract. 2020. Online ahead of print.
    6. Wiles V, Hohenhaus A, Lamb K, Zaidi B, et al. Retrospective evaluation of toceranib phosphate (Palladia) in cats with oral squamous cell carcinoma. J Feline Med Surg. 2017; 19: 185-193.
    Oscar Cortadellas
    Professor Associado Departamento de Medicina e Cirurgia Animal
    • HOSPITAL CLÍNICO VETERINÁRIO 
      
    • UNIVERSIDADE CEU CARDENAL HERRERA
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